sexta-feira, 29 de abril de 2016

o erotismo





A editora Autêntica lançou este ano uma nova e caprichada edição em português de dois dos mais famosos livros do pensador francês Georges Bataille (1897 – 1962): A parte maldita (resenhada por Daniel B. Portugal) e O erotismo. Neste post,  fala um pouco sobre O erotismo, citado daqui para frente como ER (a numeração das páginas e a tradução são, naturalmente, as da edição da editora Autêntica).

O erotismo – livro originalmente publicado em 1957 — nos oferece um referencial profícuo e bem lapidado para refletirmos sobre o desejo e a experiência interior desses seres complicados que somos nós, humanos. A perspectiva de Bataille nos ajuda a enxergar o ponto de fuga das paixões humanas. Sim, trata-se de um único ponto, um único objeto (ou não-objeto) na base de todos os nossos desejos, embora variem as vias pelas quais o abordamos. “Esse objeto tem os mais variados aspectos, mas, desses aspectos, só penetramos o sentido se percebemos sua coesão profunda” (ER, p. 31). 

Tal coesão profunda se revela no fato de buscarmos sempre o fim de nossa descontinuidade, de nosso fechamento em um eu. Porém, chegar ao fim de tal busca seria o mesmo que desaparecer enquanto ser descontínuo – seria o mesmo que morrer. É assim que se pode entender a primeira fórmula que Bataille oferece daquilo que ele denomina Erotismo: “a aprovação da vida até na morte” (ER, p. 35). Essa afirmação, vale ressaltar, não é para ser entendida em sentido fraco ou figurativo. O que Bataille descobre em O erotismo é “que só chegamos ao êxtase na perspectiva, mesmo que longínqua, da morte, daquilo que nos aniquila [enquanto seres descontínuos]” (ER, p. 294).

leia mais na fonte: 
http://filosofiadodesign.com/o-erotismo/

vertigem 6




vertigem 6

dessa vertigem
sobrou a rima
que é prima da palavra/imagem
V(l)ER na plataforma do sentido
o objeto do desejo
onde vai ser o beijo
no instante dardo
quando o bardo
dilacera toda fibra
toda tripa do estômago
sem válvula de escape
o índio e seu tacape
dentro a Oca fêmea
na palavra gêmea
que o gozo assume
como um vagalume
jorra a língua lume
sobre a pele impune
pode ser tapume
a carne que me aquece
ou faca de dois gumes
se eu esquecer o nome
é ela quem me esquece

Artur Gomes II

www.fulinaimicas.blogspot.com




vertigem 5

meu santo da-ime
livrai-me do abandono
das intensas noites de sono
da verdade nua e crua
do destino que me persegue
meu santo
dai-me
essa mulher semi-nua

Artur Gomes Gumes

Vertigens



Vertigem 2

tua vertigem
não me espanta
nem tão pouco me acalma

psicanaliticamente
vou lambuzar tua alma
como quem molha uma planta
que deságua da semente


www.fulinaimicas.blogspot.com






Vertigem 3

essa vertigem
ainda vai dar nexo
minha mãe se mostra
nunca se esconde
explode no que sente
o teu corpo é sexo
e o teu sangue é quente

Gigi Mocidade

www.tvfulinaima.blogspot.com




vertigem 4

mãe e filha
na mesma trilha
no mesmo atalho
da maravilha
do corpo santo
tua vertigem
agora e sempre
nuas no meu canto

Federico Baudelaire

quinta-feira, 28 de abril de 2016

são saruê 15





são saruê 15

amo felinos
dionisíaco desejo
de cravar a língua
em tua carne crua
e o destino nos persegue
em cada fase dessa lua

Artur Gomes Gumes

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Oficina Artes Cênicas - O Espelho


Oficina Artes Cênicas - O Espelho

de 5 a 26 de maio - das 15 às 18h
Tendo o Espelho como elemento cênico desenvolver uma pesquisa no universo surrealista do dramaturgo Espanhol Fernando Arrabal tendo como pano de fundo os textos: Fando e Lis e Guernica. 

Com o ator poeta e Diretor de Teatral: Artur Gomes

terça-feira, 26 de abril de 2016

são saruê 14




são saruê 14

os ponteiros do relógio
cravados entre os dentes
clemente pega o revólver
exalando ódio
no objeto do sujeito
tomba numa tocaia
com um balaço no peito

Federico Baudelaire
www.federicobaidelaire.blogspot.com 

sábado, 23 de abril de 2016

Oficina de Teatro





Oficina de Teatro
Em maio - Oficina de Teatro no SESC Campos 
Quintas-Feiras das 15 às 18h tendo como elemento
cênico o Espelho para uma pesquisa no universo do 
dramaturgo Espanhol Fernando Arrabal.
a partir do dia 5 de maio.

Direção: Artur Gomes 

sexta-feira, 22 de abril de 2016

fulinaímicas



fulinaímica

o mar
violentava a barra
com a fúria da sua natureza

e este barquinho
flutuava em paz
pela correnteza

Artur Gomes 

quinta-feira, 21 de abril de 2016

poétika 3




Poétika 3

na poltrona em frente
ela comia pão com mortadela
logo de manhã
olhando o vidro da janela
quando o carro
atravessou a passarela
eu era o guaravita em sua mãos

Artur Gomes 
www.fulinaimicas.blogspot.com 

alice melo monteiro gomes





Alice

A música está no bico dos pássaros
na pétala da lamparina
no caracol dos teus cabelos
no  movimento dos músculos
e no m das mãos

nada mais sagrado
do que teus olhos acesos
pra me iluminar na escuridão

Artur Gomes
foto: Artur Gomes Gumes
 

um rio






Um rio

Era uma vez…
um rio
que de tão vazio,
já não era rio
e nem riachão,
tão pouco riacho.

Não era regato,
nem era arroio,
muito menos corgo.

era uma vez…
um rio
que, de tanta cheia,
já não era rio
e nem ribeirão.

Era mais que Negro,
era mais que Pomba,
era mais que Pedra,
era mais que Pardo,
era mais que Preto,
bem maior ainda
que um rio grande.

Era uma vez…
um rio
que de tão antigo
era temporário,
era obsequente,
era um rio tapado
e antecedente.

Que não tinha foz,
que não tinha leito,
que não tinha margem
e nem afluente,
tão pouco nascente.

Mas que era um rio.

Não era das Velhas,
não era das Almas,
não era das Mortes.

Era um Paraíba,
era um Paraná,
era um rio parado.

Rio de enchentes,
rio de vazantes,
rio de repentes:

Um rio calado:

Sem Pirá-bandeira,
Sem Piracajara,
Sem Piracanjuba.

Em suas águas
não havia Pira
não havia íba,
não havia jica,
não havia juba.

Nem Pirá-andira,
nem Piraiapeva,
nem Pirarucu.

Era um rio assim:
Sem pirá nenhum.
Mas que era um rio.

Era uma vez….
um rio.

Que, de tão inerte,
já não era rio.

Não desaguou no mar,
não desaguou num lago,
nem em outro rio.

Era um rio antigo,
que de tão contido
não é natureza.

Um dia foi rio,
há muito é represa.


Antônio Roberto Góis Cavalcanti(Kapi)



FULINAÍMAproduções
portalfulinaima@gmail.com 
www.youtube.com/fulinaima

moinhos de vento



moinhos de vento

por tanto tempo
por tanta escrita
por tanta carta
sem respostas
nossos moinhos de vento
muito além da mesa posta

ainda trago em mim
tuas mãos
tuas coxas
tuas costas

a tua língua
entre os dentes
em ex-camas que não tivemos
em madrugadas expostas

e tua fome era tanta
em tudo o que não fizemos
nesse teu corpo de santa
naquele tempo de bestas
na caretice de bostas



injúria secreta

Suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
Ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida

Pedra do Reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
pétala na mola do moinho
palavra acesa na fogueira

pós os ismos tudo e pós na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis no palco ou no cinema

a palavra que procuro é clara quando não é gema
até furar os meus olhos com alguma cascata de luz

devassa em mim quando transcende
lamparina que acende
e transforma em mel  o que antes era pus


Pontal Foto.Grafia

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras – descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem
                                    mangues em pólvora
                                    Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
                                             Rimbaud - África virgem –
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada 

Atafona.Pontal.Grussaí 


as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
          Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
                          carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
                              penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco 

Atafona.Pontal.Grussaí 


as crianças são testemunhas:
 Mallarmè passou por aqui

bebo teu fato em fogo
                punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
                aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
                sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
                                       plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

Artur Gomes


Publicado na Antologia Internacional - Eco Arte Para Re-Encantamento do Mundo, organizada pela Bióloga Michelle Sato e editada pela Universidade Federal do Mato Grosso – 2011 – Publicado na Antologia Poesia do Brasil Vol. 15 – 2012 – Proyecto Cultural Sur Brasil – Editora Grafiti - Faixa do CD Fulinaíma Rock Blues Poesia – a sair

www.oficinacinevideo.blogspot.com

ind/gesta


IND/GESTA

ê fome negra
incessante
febre voraz - gigante
ê terra de tanta cruz!
onde se deu primeira missa
índio rima com carniça
no pasto pros urubus.


Artur Gomes 
in Suor & Cio - 1985

quarta-feira, 20 de abril de 2016

são saruê 13 - patricida



são saruê 13 - patricida

desde 1964
que eu tenho um pesadelo
um trauma constitucional
sonho que estou sendo enrabado
pelo congresso nacional


Federico Baudelaire

são saruê 11



são saurê 11

arrasta-se a procissão
pra festa de são gonçalo
os homens seguem no chão
as mulheres à cavalo

no terreiro da matriarca
segue a roda em profusão
penso a servidão dessa gente
e o diabo da encarnação

Federico Baudelaire

são saruê 1o



são saruê 10

minha procura: poesia
no olho cedo de camões
no colho de lampião
no interior dos meus sertões
na cerca de arame farpado
na carne seca com  feijão

ante-vi minhas visões
no sangue do olho no cão
são saruê me de picardia
são benedito : proteção

do pão nosso de cada dia
tenho a marca em minhas mãos

Federico Baudelaire

são saruê 12



são saruê 12

aqui
em são francisco do itabapoana
existe uma história sagarana
de morte/vida severina
neste imenso litoral

a natureza humana
com sua fúria assassina
mata o pixe afogado
quase sempre envenenado
por degradação ambiental

Artur Gomes 

domingo, 17 de abril de 2016

são saruê 9



são saruê 9

a carna/dura do corpo
fenece ao veneno da cobra
abre-se a cova pro morto
a terra engole o que sobra

Artur Gomes

são saruê 8



são saruê 8

no sertão não tem mais
 gracilianos
só paupéria longos anos
não tem mais guimarães rosa
a poesia é pouca  prosa
muito menos joão cabral

só morte vida Severina
no sertão – a fome é sina
penitência pessoal

falta chuva falta água
falta trigo para o pão
maisena pro mingau

o que não falta é corrupção
mas sem investigação
da polícia federal

Artur Gomes


são saruê 7




são saruê 7

no sertão ainda  prevalece
faca foice facão cabo de enxada
espinha de peixe rapa dura

mesmo com as parabólicas
espalhadas nos telhados
permanece
:
coronéis e deputados
comandando a ladainha

seca fome miséria
longos anos de paupéria
carne seca com farinha

Federico Baudelaire

são saruê 6



são saruê 6

com garfo e faca
empurram pela garganta
espinha de peixe
carne seca
rapadura com farinha

o grande almoço do dia

no sertão há vidas secas
exploração e covardia

Federico Baudelaire

são saruê 5



são saruê 5

o olho caolho de lampião
me espreita na empreitada
dentro da roça de algodão

não sou filha de são joão
nunca tente me iludir

juro que sou safada

mas
não  coloco azeitona na empada
do filha da puta do coronel
que tentar me seduzir

Federika Lispector


são saruê 4



são saruê 4

são bento dos anjos
que me proteja
da cachaça da cerveja
de todo vento que sopra
às margens do são Francisco
por todo peixe que arrisco
encaro de frente o curisco
o coronel e sua tropa
na velha são saruê

Artur Gomes II


são saruê 3



são saruê 3

me deparo com a coisa
e minha frente
de repente

não se realidade
ou fantasia

o olho caolho de lampião
me espreita
e é quem me guia

Gigi Mocidade




são saruê 2



são saruê  2

às margens do velho chico
escorre sangue e bala
não me calem a fala
nem com tiro no peito
neste país de comício

me ponho ao sacrifício
de falar o que penso
e posso
até o fundo do poço
na medula do osso
pra defender o que é nosso


Artur Gomes II

são saruê 1



são saruê 1

o vento nordeste
atiça meu ser cabra da peste
assumo o risco
sou diabo sou curisco
boto a peixeira na cinta
pra pular fogueira
em noites de São João
meu Xangô Xangô menino
viva o povo nordestino
nosso deus é Lampião
Artur Gomes II
FULINAIMAGEM - A Poesia Proibida de Artur Gomes


são saruê




são saruê 

festa no sertão é bala
bola no buraco é búlica
cabral não descobriu a pólvora
por trás de cada coisa pública
a chama do lampião na palha
fogueira sempre quero acesa
linguagem meu fuzil metralha

explosão como feijão na mesa

Artur Gomes II
www.fulinaimicas.blogspot.com