quinta-feira, 21 de abril de 2016

moinhos de vento



moinhos de vento

por tanto tempo
por tanta escrita
por tanta carta
sem respostas
nossos moinhos de vento
muito além da mesa posta

ainda trago em mim
tuas mãos
tuas coxas
tuas costas

a tua língua
entre os dentes
em ex-camas que não tivemos
em madrugadas expostas

e tua fome era tanta
em tudo o que não fizemos
nesse teu corpo de santa
naquele tempo de bestas
na caretice de bostas



injúria secreta

Suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
Ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida

Pedra do Reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
pétala na mola do moinho
palavra acesa na fogueira

pós os ismos tudo e pós na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis no palco ou no cinema

a palavra que procuro é clara quando não é gema
até furar os meus olhos com alguma cascata de luz

devassa em mim quando transcende
lamparina que acende
e transforma em mel  o que antes era pus


Pontal Foto.Grafia

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras – descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem
                                    mangues em pólvora
                                    Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
                                             Rimbaud - África virgem –
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada 

Atafona.Pontal.Grussaí 


as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
          Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
                          carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
                              penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco 

Atafona.Pontal.Grussaí 


as crianças são testemunhas:
 Mallarmè passou por aqui

bebo teu fato em fogo
                punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
                aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
                sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
                                       plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

Artur Gomes


Publicado na Antologia Internacional - Eco Arte Para Re-Encantamento do Mundo, organizada pela Bióloga Michelle Sato e editada pela Universidade Federal do Mato Grosso – 2011 – Publicado na Antologia Poesia do Brasil Vol. 15 – 2012 – Proyecto Cultural Sur Brasil – Editora Grafiti - Faixa do CD Fulinaíma Rock Blues Poesia – a sair

www.oficinacinevideo.blogspot.com

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