segunda-feira, 30 de maio de 2016

vertigens 10 e 11






vertigem 10

de pedra dourada ficaram portas
janelas de entradas e saídas
a sedução de dois olhos
em minha carne proibida

de pedra dourada ficou um café orgânico
numa manhã de domingo
do outro lado da trilha
com tanta veraCidade
que me esqueci da idade
e me apaixonei por tua filha



Artur Gomes



com os dentes cravados na memória

vertigem 11

em
são sebastião do sacramento
suas coxas em movimento
me lembram peixes sagrados
no mar que minas não tem

mãos por teus montes claros
provocam marés - atropelos
passeio de língua entre pelos
em outras partes também
lábios de mel abissal
peixe espada noutro mar - prometeus
desejos despindo teus seios
teus dentes cravados nos meus

a lua por sobre a capela
a luz em tua alma - donzela
afrodite  - uma  caça indefesa
presa - em minhas unhas de zeus


Federico Baudelaire

terça-feira, 24 de maio de 2016

vertigem 9



vertigem 9

pedra dourada
não é uma metáfora
em minha carne de maio
em tantas almas de pedra
nas minas que provoquei
nas juras secretas que fiz
quando em teu corpo toquei

de pedra dourada
na língua trago guardado
o doce das águas do rio
molhado beijo - luísa
as marcas na minha camisa
sugadas da tua blusa
a flor do láscio que usa
entre as montanhas no cio

Artur Gomes




segunda-feira, 23 de maio de 2016

com os dentes cravados na memória























com os dentes cravados na memória
vertigem 8

de pedra dourada ficaram dedos
em minha língua de pétalas
desejos não saciados
por águas de cachoeiras
por trilhas inalcançáveis
na pele dourada de sol

de pedra dourada ficaram minas
cravadas na flor da memória
no corpo cicatriz - tatuagem
nos olhos quanta vertigem
não sei por quantas viagens
ainda terei estas minas
em cada sulco dos dedos
em cada pedra nas mãos

Artur Gomes


mariana


mariana

quando penso minas
penso montes penso pelos
cabelos alvoroçados entre  coxas
por tanta carne de ferro

era 5 de novembro de um ano passado
a lama explodiu barragens
e foi levando as mortes
homens peixes mulheres crianças
e um rio que era doce
 assassinados pela Vale
com seu maldito instinto de exploração

s-amargo esse país minerador
com fome de explorar a terra
até o derradeiro grão

Artur Gomes



quinta-feira, 19 de maio de 2016

no coração dos boatos 2



no coração dos boatos 2

Agora que ocupo  esta cadeira de Presidente do Reino/ficção de Assombradado, acabo de nomear como meus assessores diretos todos os membros da Mocidade Independente de Padre Olivácio, começo a
desfiar a colcha de mistérios que envolve o nosso vizinho Reino Imperial de Brasylândya desde as década de 50/60 do século passado. Há muito venho me perguntando: - quantos mendigos Sandra Cavalcanti afogou no rio Guandu? Quem deu o tiro de misericórdia no assassinato de Getúlio Vargas? Quem desligou o aparelho que mantinha Tancredo Neves respirando? Por quê até hoje o corpo de Ulisses não foi encontrado?
Como podem v(l)er são muitas perguntas ainda sem respostas, e por quê também os órgãos investigatórios do vizinho Reino até hoje não se esforçaram em esclarecer?
 Como nosso mestre Uilcon Pereira sempre observou: - o homem/aranha também é um fantasma que transita pelos telhados obscuros de Brasylândya e Assombradado, e na ex-capitania dos Goytacazes Usina sempre foi e sempre será Usura.

Bracutaia Pereira da Silva


quarta-feira, 18 de maio de 2016

no coração dos boatos




no coração dos boatos

Após ser eleito Presidente de Assombradado  o reino/ficção Bracutaia Pereira da Silva, concede sua primeira entre/vista a TVfulinaíma e em seu pronunciamento pudemos observar o seguinte: - "desde que li pela primeira vez o livro O Outono do Patriarca, de Garcia Lorca, que sonhei um dia estar nesta cadeira. E agora pretendo desenvolveras investigações que há muito me instigam no vizinho Reino/Imperial de Brasylândya e na ex-capitania dos goytacazes. Alguns fatos históricos precisam ser melhor esclarecidos, como por exemplo: a falência da Usina de Outeiro e os intermináveis empréstimos da COOPERFLU (cooperativa dos usineiros do norte fluminense),  junto ao Ministério do Planejamento do vizinho Reino, de onde nos chegam informações que o "fantasma" de Ulisses estaria aparecendo vez em quando no Palácio Jaburu, e não a temer que possa afastá-lo de lá. Como costumava dizer minha querida mãe: - há muito mais mistérios entre o Reino de Assombradado e o Reino de Brasylândya do que possa imaginar a nossa vilã filosofia"

MOENDA

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço

usina
mói o braço
a carne o osso

usina
mói o sangue
a fruta e o caroço

tritura
torce dos pés
até o pescoço

e do alto
da casa grande
os donos do engenho
controlam:
o saldo & o lucro

Artur Gomes

sexta-feira, 13 de maio de 2016

pátria minha




Pátria Minha
Vinicius de Moraes

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para 
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra 
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha 
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."

Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.

Beatriz Lobo: obrigado pela sugestão!

Conheça a vida e a obra do autor em "Biografias".



Clic no link e ouça o poema na voz do próprio Vinicius de Moraes 

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Curso de Artes Cênicas - O Espelho




Curso de Artes Cênicas - O Espelho
Maio - Quintas Feiras - da 15 às 18hs
a partir de Junho - até Dezembro
também aos sábados das 14 às 17h
Vagas Limitadas - Inscrições Abertas no SESC Campos - Grátis

Plano de Ação do Curso

Através de pesquisa sobre o universo surrealista do dramaturgo espanhol Fernando Arrabal, desenvolver textos, exercícios e jogos dramáticos tendo como elemento cênico, uma cadeira e um espelho. 

aqui nesta página material para pesquisa





vertigem 8

na praia onda vaga
me acertou em cheio
a lua entrou penetrou as  coxas
nauquele mesmo instante
em que entrei nos meios
como um grande susto
pelas marés de outono
que arranca o sono no desassossego
e me atira onde com lucidez não chego 


Gigi Mocidade



poeminhas didáticos


poeminha didático 2

meu santo dai-me
livrai-me desse elefante
paquiderme gigante
vagaroso que  nem preguiça

que depois de mais 5 séculos
continua no mesmo lugar
tomando a terra dos índios
como os portugueses fizeram
quando acabaram de chegar

o que antes capitanias
hoje imensos latifúndios
pra muito além do além mar
e ai do povo miserável 
que um dia ali pisar
seus donos e seus jagunços
não exitam em trucidar

Federico Baudelaire 





outro Cabral em Floresta do Navio

onde o poeta vislumbra Constantinopla
em cenários de ópera neo-barroca
antevejo abismos da finitude no mais
sem fundos de nós, secos mortais.

É a sementeira de sombras sem retóricas
nem vaga ou vadia poeticidade.
É o chão sem as flores do estilo.
É o grão que pode re-nascer das cinzas.

Se as elites cruéis deste país,
aqui alhures se autoperpetuam,
não é pela melancolia barrococó
mas pela aridez da ganância.

Esdrúxula é a estupidez ds poderosos.
Nenhum gesto operístico pode contê-los.
Ainda o povo que sabe da fome e do não
Um dia fará desse cemitério outra nação.

Atentados Poéticos
Jomard Muniz de Brito
Recife, 28 de outubro de 2001




poeminha didático 3

meu santo dai-me
livrai-me dessa justiça
que liberta asssasina
monstro - com nome de filha
libra-me dessa armadilha
da capa dessa mortalha
prefiro morrer na trilha
do que viver nessa bandalha

Federika Lispéctor


quarta-feira, 4 de maio de 2016

são saruê 17 e 18




são saruê 17

folhas secas me excitam
folhas secas me vaginam
folhas secas me atraem
como os pelos da boca roxa
essa coisa de fêmea
encravada em nossas coxas

Gigi Mocidade



são saruê 18 

foi então em batatais
na gruta de são francisco
entre as tintas de portinari
e paredes de catedrais
numa missa de domingo
leila semi-nua de mini-saia
na sacristia  do padreco
o escândalo  fez tanto eco
que o povo esqueceu jamais 

Federika Lispector

terça-feira, 3 de maio de 2016

A Palavra Como Arma



A PALAVRA COMO ARMA

Assisti, ontem, na TV Brasil, a entrevista de um detentor do Prêmio Nobel da Paz, Adolfo Perez Esquivel.

Tendo vivido até hoje na defesa dos direitos humanos, Esquivel deu uma lição de história e resistência. Trata-se disse ele, de um golpe, mas de um golpe brando, sem os aparatos dos já concretizados pelo uso da força. A estratégia agora é outra. E não há dúvida de que chegará ao seu objetivo, pois para isso foi planejado e financiado.

Estarrecida ainda com a vergonhosa votação na Câmara dos Deputados, que nos revelou o que há de pior entre nós, entre demagogia e hipocrisia, em nome da nossa ainda débil democracia, agora apunhalada, eu me pergunto, como milhões, o que será de agora em diante.

O que virá agora? Não sabemos. O que sabemos é que uma sombra paira sobre o Brasil e é preciso afugentá-la e vislumbrar algum céu. Como será isso? Quem se ocupará disso?  E isso é gancho para um outro programa que assisti, no Canal Brasil, sobre a resistência política por meio de jornais.

 Um belo trabalho de pesquisa trouxe à tona as inúmeras publicações, que existiram desde antes da independência, que saíram em defesa dos direitos da população sempre oprimida e negligenciada. Muitos deles foram presos, tiveram suas redações quebradas, mas nunca desistiram. É na crise que se fortalecem os espíritos.

Não tivéssemos a internet, não tivéssemos os jornalistas que nos trazem o contraponto das verdades deformadas da mídia impressa, não teríamos um horizonte.

A importância da imprensa está justamente na possibilidade de assumir outra forma e seguir resistindo, seguir teimando, com tudo a declarar, nada a esconder, e principalmente não temendo.

As guerras mudam, as armas também. Mas a palavra sempre se oferece à coragem.

Helena Ortiz
www.integradaemarginal.blogspot.com.br

domingo, 1 de maio de 2016

MST - Bandeira





MST - Bandeira

essa áfrica nos meus olhos
navegar é minha sina
em toda febre todo fogo
que incendeia o continente
os teus olhos de menina
eu sou um poeta e nunca fui a China
mas vermelho é o meu sangue
desde que nasci

tenho a bandeira vermelha
sem branco/azul verde/amarelo
a cor do sangue - centelha
meu uni/verso é paralelo

Artur Gomes